O post de hoje ainda trata dos efeitos da mudança. Me mudei a prestação e parece que só no final senti os reais impactos.
Antes meu deslocamento tinha motivo, "ah acho que me sentirei melhor quando todas as minhas coisas estiverem aqui". Pois minhas coisas enfim se acomodaram e a sensação não foi a de conforto, mas de confronto.
Eu falei no post passado sobre APEGO e este também retratará isso, mas ainda sinto que terá mais o que ser explorado sobre o tema.
Enfim, sempre fui muito ligada aos meus objetos. Sempre depositei sobre as minhas coisas um valor sentimental exagerado. Eu fui uma criança, que embora tivesse amigos, gostava de brincar sozinha e meus brinquedos foram então não só brinquedos mas principalmente companhia. Talvez disso veio esse hábito de dar a objetos um valor mais significativo, não os associava ao que de fato são, mas principalmente ao que me faziam sentir.
Eu até acreditava que se viesse a ser uma mulher solteirona que mora sozinha (como supus a maior parte da minha vida) seria uma potencial acumuladora.
Porém a mudança de casa veio para que eu confrontasse os meus "xodós". Eu associava meus objetos ao bem estar que eles me traziam, as lembranças que representavam, ou ao visual mesmo, tudo coisas que sob minha ótica reforçavam minha história e personalidade. Eram o meu mundo!
Eu estava acostumada as minhas prateleiras com bibelôs, livros e penduricalhos. As minhas coleções, mesmo aquelas sem sentido, como uma caixa cheia de cartas que recebi (a maioria quando era criança) de pessoas que talvez nem se lembrem mais de mim.
Acho que notei um primeiro desconforto com isso quando meu marido, na época namorado, foi ao meu quarto pela primeira vez. Na época eu tinha um imenso mapa mundi numa das paredes do quarto, um crânio encima da comoda, e coisas bem "Aline". Me lembro da cara dele, do desconforto, e dele questionar se eu precisava de tanta coisa assim pra que me sentisse bem.
Confesso que não recebi bem tal reação. O achei um tanto insensível. Fiquei mal e liguei a situação a algo pessoal (coisa tola que ainda faço). Não queria sufocar meu marido com minhas coisas, mas também não me sentia completa sem elas.
Ele é uma pessoa simples, que vive com o necessário. Depois constatei, que não só éramos muito diferentes, mas que somos na verdade opostos. Na casa dele não havia se quer um único objeto de decoração. Cores e móveis neutros e discretos. Nada em excesso, tudo funcional, prático. Inclusive julguei que era até "sem personalidade e sem graça demais". Ele é completamente desapegado, então eu realmente não podia esperar que ele visse as coisas como eu. Por isso notei que nesse assunto ambos ficávamos constrangidos.
Foi ai que comecei a me sentir culpada por ter tanta "tranqueira", parecia depender de uma parcela dessas coisas para me sentir "eu".
Com o casamento se aproximando eu sabia que não teria como levar tudo. Então pra ajudar a me organizar pra mudança li um livro ótimo sobre organização chamado: A mágica da arrumação - Marie Kondo. Esse livro me fez repensar a importância excessiva que eu dava as coisas. Através disso comecei a praticar o desapego. Consegui me desfazer de diversos livros, brinquedos antigos, roupas, objetos e anotações. E foi uma sensação bacana, pois consegui abrir a mente sobre o assunto, Marie Kondo me ensinou a importância de saber avaliar se o que temos realmente é necessário ou se nos faz feliz. Até então tudo era associado a alguma fase ou emoção. Mas consegui aos poucos desvencilhar uma coisa da outra. De descartar, por exemplo, coisas que eu não gostava, mas mantinha por consideração a quem me presenteou. Ou de achar que eu precisava manter objetos que representavam algum momento especial, para que esse momento se mantivesse "vivo". Comecei a perceber o problema do meu bem estar estar associado/dependente de coisas.
Ainda assim foi só quando me mudei de fato que o impacto veio mais forte. Me mudei a prestação, e isso cooperou para que eu revisasse, em cada etapa, o que realmente ia trazer. Me sentia mal com o transtorno que seria trazer minhas coisas. A noção da vida mais compacta me pressionou a abrir mão das minhas coisas, e a vida de casada alavancou a necessidade de me livrar "do meu mundinho".
Mas quando a mudança enfim acabou e eu consegui organizar minhas coisas, reparei que o "meu mundinho" agora se resumia num pequeno armário. Com bem menos coisas do que já tive. Fiz daquele armário a minha Nárnia, meu cantinho.
Eu confesso que infelizmente isso me deprimiu algumas vezes. Que em determinadas horas bateu uma tristeza ao olhar pro que restou. Me sentia perdida na nova casa, custei a me identificar, então o local onde guardei o que sobrou dos meus objetos de valor sentimental, virou meu refúgio.
Era a sensação de que, mesmo achando que eu era a pessoa que tinha coisas demais, ainda faltava alguma coisa.
| Até retratei isso nesse desenho |
E faltava algo mesmo: Maturidade e gratidão.
O triste disso não foi ter me desfeito das minhas coisas, mas a sensação de não haver espaço pros meus excessos, de me sentir reprimida, limitada. Infelizmente associei a nova fase, a principio, como uma ausência de mim, como uma inadequação. Misturei a situação com o que eu pensava ser.
Tanto estive acostumada a me expressar com a decoração, de me identificar com objetos e dar a eles algum significado, de exibir minhas extravagancias/peculiaridades, que ao perder essa referência eu me sentia reclusa, e ai corri o risco de me apegar ainda mais as coisas que me restaram.
Mas com o passar do tempo comecei a ser grata as coisas que eu tinha, e percebi a complexidade de associar felicidade com pose. Eu realmente ainda tenho muito o que trabalhar nessa área do apego (e não só de objetos), mas hoje enxergo o progresso que fiz. As vezes eu acho que exagerei na dose do desapego, no sentido de que eu estava deixando de me expressar por começar a considerar tudo como desnecessário, mas já vi que também não é por ai. Aos poucos vou buscando o equilíbrio e avaliando tudo com mais cautela.
E hoje percebo a importância de confrontar nossos hábitos, eu realmente acreditava que precisava de muita coisa pra ficar bem, isso também mostra que eu era muito controladora, as coisas tinham que ser do meu jeitinho, e nisso eu acabava insaciável, sempre criando condições para conseguir me sentir confortável. Agora balanceio essa ideia de me adaptar ao local e não só de adaptar o lugar a mim. Porque se fosse como antes, de ter sempre que adaptar o lugar, a insatisfação e a ingratidão ganhariam força. Então agora consigo ver que tudo foi imensamente necessário. É bom ter a oportunidade de viver uma experiência nova, de enfrentar desafios, e de aprender a ser livre das armadilhas que nós mesmos criamos.
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